Alceu Valença celebra 80 anos na embolada jovial do tempo
Artista estreia turnê em março, planeja álbum com músicas inéditas e nega que faça rock.

Alceu Valença conhece os porteiros, ruas, garçons e buracos do Leblon, bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro, no qual o artista pernambucano reside desde a década de 1980. Tanto conhecimento veio do passo a passo das caminhadas diárias que faz pelo bairro. Volta e meia, algum fã o para na rua. Mas nada como em Olinda (PE), cidade pernambucana onde Alceu é rei da folia. Lá, o artista mal põe os pés na rua e se vê cercado por dezenas de turistas com pedidos de foto. Alceu atende todo mundo. Mas prefere a tranquilidade de Lisboa, cidade de Portugal que visita com frequência, e das caminhadas do Leblon. “Gosto de ser livre”, justifica o artista em entrevista a FLO. Além das ruas, a liberdade é exercida no palco por esse senhor cantor, compositor e músico nascido em 1º de julho de 1946 em São Bento do Una (PE), cidade do agreste pernambucano onde Alceu Paiva Valença ouviu na infância os caboclinhos, maracatus, baiões, xotes e aboios que moldaram a obra criada pelo artista com inspiração no som dos violeiros e cantadores nordestinos. “Gosto de palco. Gosto de correr no palco”, ressalta o cantor, elétrico pela própria natureza esportista dos tempos em que, adolescente, jogava basquete no Recife (PE) e tinha o apelido de Veloz HP, nome de óleo lubrificante da época. Todas as referências da música de Alceu Valença estarão condensadas no roteiro do show “80 girassóis”, idealizado para celebrar as oito décadas de vida do artista. A estreia da turnê está programada para 14 de março, no Rio de Janeiro (RJ). “Eu vou mostrar várias facetas da minha obra’, passando por vários discos que eu gravei desde 1972”, resume Alceu, sem ranços nostálgicos. “Eu vivo na embolada do tempo. Presente, passado, futuro. Tudo ao mesmo tempo. Eu vivo o aqui e agora”, afirma. O ‘aqui e agora’ de Alceu Valença abarca série de músicas inéditas, feitas durante o que o compositor caracteriza como “surto criativo”. Entre as novidades, que deverão gerar álbum com músicas inéditas ao longo de 2026, há “Samba do Vidigal” – composto com inspiração em Sérgio Ricardo (1932 – 2020) e em amigo morador da comunidade carioca do Vidigal – e xote em que Alceu menciona na letra a sanfona de Mestrinho, cultuado músico da nova geração de acordeonistas. “Que ninguém me peça para fazer música que eu não farei. Só faço música quando vem a inspiração”, avisa o autor de “Solidão”, música composta em madrugada insone vivida por Alceu em quarto de hotel de Belo Horizonte (MG) após show na capital mineira. Alceu Valença revela com orgulho que a pessoa que mais entendeu essa obra criada sem pressão foi justamente o mestre do artista, Luiz Gonzaga (1912 – 1989), conterrâneo do cantor. E esse entendimento veio logo no início da trajetória de Alceu, cantor revelado nacionalmente em 1972 quando apresentou a embolada “Papagaio do futuro” no sétimo e último Festival Internacional da Canção ao lado de Geraldo Azevedo e de outro mestre, Jackson do Pandeiro (1919 – 1982), inspiração para Alceu ter composto em Paris, em 1979, o coco de embolada “Coração bobo”, música que veio a se tornar, em 1980, o primeiro grande sucesso do cantor. Alceu lembra quando, ao terminar de fazer show em Juazeiro do Norte (CE), munícipio do Ceará, se surpreendeu ao encontrar Luiz Gonzaga na coxia. E maior surpresa teve quando ouviu do autor da toada “Asa branca” (1947) que ele estava ali somente para ver o show de Alceu. “Você inventou uma timbragem diferente de tudo com uma banda de pife elétrica”, disse Gonzaga ao pupilo, que nunca mais esqueceu as palavras do mestre. A eletricidade da música de Alceu faz com que o som do artista volta e meia seja percebido como mix de ritmos nordestinos com o rock. Nada mais equivocado, na visão do criador. “Minha música não é rock. Não tenho preconceito contra nenhum gênero. Respeito quem faz rock. Mas minha música não é rock”, enfatiza. Se Alceu nunca esqueceu as sábias palavras de Luiz Gonzaga, tampouco o artista apagou da memória o impacto de apresentação feita na infância, nos primórdios da trajetória existencial, quando o jovem Alceu ainda nem começara a jogar o basquete que largaria ao se sentir mais atraído pela poesia de Fernando Pessoa (1988 – 1935), Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) e Mário Quintana (1906 – 1994), cujos versos de certa forma representaram para o Alceu o impulso para se iniciar na arte de fazer música e letra. Essa apresentação aconteceu no Cine Teatro Rex, na cidade natal de São Bento do Una (PE), em concurso de frevos. Não satisfeito em somente cantar um frevo, o já elétrico Alceu deu cambalhotas pelo palco e se aqueceu com os aplausos calorosos da plateia. “Adorei as luzes da ribalta. Foi isso que em impulsionou a ser artista”, lembra, ainda emocionado, o cantador quase octogenário que, com a mesma eletricidade daquele tempo seminal da infância, irá desfolhar “80 girassóis” em cena no lugar onde sempre comemorou os aniversários: o palco. No palco, como na vida, Alceu Valença marca o tempo na base da embolada.