Arquitetura _ 05 novembro 2026 _ por Silvana Maria Rosso

Arquitetura viva para um novo conceito de natureza

Os projetos do ecoLogicStudio, de Claudia Pasquero e Marco Poletto, integram arquitetura, biologia e computação e design para enfrentar os desafios das mudanças climáticas.

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Fundado em Londres em 2005 pelos arquitetos italianos Claudia Pasquero e Marco Poletto, o ecoLogicStudio é referência internacional em biodesign e arquitetura ecológica. Seus projetos integram arquitetura, biologia, computação e design para enfrentar os desafios das mudanças climáticas e da neutralidade de carbono. Claudia é curadora, pesquisadora e professora na Universidade de Innsbruck e na UCL Londres. Marco é pesquisador e professor, com atuação em design computacional e arquitetura ecológica. O trabalho da dupla foi apresentado no Centre Pompidou, Design Museum de Londres, Bienal de Arquitetura de Veneza e COP26. Inspirados pelo filósofo Gregory Bateson, defendem um novo conceito de natureza: "Para alcançar uma ecologia global, é fundamental integrar linguagens lógicas e metalógicas; o design é uma dessas linguagens." Para o estúdio, natureza e tecnologia formam um sistema "ciberorgânico", no qual processos biológicos e tecnológicos são inseparáveis. "Propomos uma arquitetura na qual as bactérias são reintegradas", resume Claudia. De acordo com os fundadores do ecoLogicStudio, a crise climática exige uma profunda revisão da maneira como entendemos a natureza e projetamos as cidades. Eles defendem que natureza e tecnologia não pertencem mais a mundos separados, mas constituem um único sistema "ciberorgânico", no qual processos biológicos, tecnológicos e algorítmicos são inseparáveis. Essa mudança de paradigma redefine o papel da arquitetura: em vez de isolar a cidade dos processos naturais, ela passa a incorporá-los ao cotidiano. "A natureza que não está mais separada da tecnologia, mas passa a fazer parte de um novo todo." Assim, a nova estética revela os processos metabólicos da vida, nos quais microrganismos transformam resíduos em recursos. Para o ecoLogicStudio, compreender essa nova natureza é o primeiro passo para uma arquitetura verdadeiramente ecológica. A casa pode produzir alimentos, limpar o ar e ainda funcionar como laboratório de pesquisa? Para o ecoLogicStudio, essa já é uma realidade. Criada por Claudia Pasquero e Marco Poletto, a Apoteca del Design, em Turim, propõe uma nova forma de morar, reunindo casa, escritório, laboratório e espaço cultural em um único ambiente. Os ambientes foram reorganizados com madeira local, biomateriais e mobiliário reversível, permitindo diferentes usos ao longo do dia. Cozinha, laboratório, sala de estar, galeria, área de estudos e espaço para eventos convivem no mesmo lugar. O grande destaque está no centro da casa: uma fazenda de microalgas formada por foto biorreatores. Aberta a estudantes, pesquisadores e visitantes, a casa funciona como um laboratório permanente, onde as soluções são testadas no cotidiano antes de serem aplicadas em projetos maiores. Mais do que uma residência, a Apoteca del Design revela como a arquitetura pode deixar de ser apenas um espaço para viver e passar a participar ativamente dos processos biológicos, ambientais e produtivos do dia a dia. No coração da casa-laboratório Apoteca del Design, o ecoLogicStudio instalou uma fazenda de microalgas que redefine a relação entre arquitetura e natureza. O espaço é organizado em torno de 20 fotobiorreatores, cuja capacidade fotossintética equivale à de uma pequena floresta, funcionando como cerca de vinte árvores concentradas dentro da residência. Mais do que um elemento arquitetônico, esse sistema atua como o metabolismo da casa. As microalgas capturam dióxido de carbono, ajudam a purificar o ar e produzem biomassa rica em nutrientes, criando um ciclo em que a arquitetura deixa de ser apenas um abrigo para se tornar um organismo vivo. Segundo Claudia e Marco, essa é uma demonstração prática de um novo conceito de natureza, no qual processos biológicos, tecnológicos e algorítmicos deixam de ser separados e passam a integrar um único sistema. Para os arquitetos do ecoLogicStudio, transformar as cidades em verdadeiras florestas exige começar pelo microbioma urbano. Microalgas, fungos, micélios e outros microrganismos desempenham um papel essencial na reconstrução da conexão entre arquitetura e paisagem, rompida ao longo da modernidade. Esses organismos são capazes de metabolizar substâncias que os seres humanos consideram poluentes, mas que representam nutrientes para bactérias e fungos. Assim, além de purificar o ar, o solo e a água, produzem recursos como biomassa para alimentos, biomateriais e energia. Os arquitetos defendem uma visão não antropocêntrica da cidade. Eles propõem criar alianças com eles, conceito que chamam de "biocidadania": onde humanos e organismos não humanos participam juntos da construção dos ecossistemas urbanos. Segundo Marco, compreender esse universo exige uma mudança cultural e novas interfaces capazes de revelar processos invisíveis ao olhar humano. O microbioma opera por uma inteligência coletiva muito diferente da nossa, e aprender a dialogar com ela é um dos grandes desafios do futuro. Essa transformação muda a forma como entendemos a nós mesmos: afinal, o corpo humano abriga bilhões de bactérias indispensáveis à vida, mostrando que somos um microbioma. Ao transformar os espaços que habitamos, também transformamos nossos hábitos, nossa cultura e nossa capacidade de construir cidades mais resilientes e integradas à natureza. Os projetos do ecoLogicStudio propõem uma nova maneira de pensar a arquitetura e as cidades. Mais do que edifícios sustentáveis, seus projetos apresentam uma nova definição de natureza, na qual processos biológicos, tecnológicos e digitais deixam de ser separados e passam a atuar como um único sistema. Nesse cenário, bactérias, microalgas, fungos e outros microrganismos deixam de ser invisíveis para se tornar parceiros na produção de energia, alimentos, biomateriais e na regeneração ambiental. Da fazenda de microalgas instalada no centro de uma casa aos jardins multiespécies e fachadas fotossintéticas, o ecoLogicStudio demonstra que essa transformação já começou. Para Claudia, "o futuro da cidade é a paisagem"; já para Marco, a arquitetura deve deixar de ser uma "máquina de morar" para tornar-se um organismo vivo, capaz de metabolizar, evoluir e renovar continuamente o ambiente ao seu redor. Mais do que imaginar o futuro, o ecoLogicStudio mostra que ele já está sendo construído, aproximando arquitetura, ciência e natureza em busca de cidades mais resilientes e integradas à vida.