A cozinha afetiva e estrelada da chef Jéssica Trindade
Carioca celebra a primeira estrela Michelin, completa 20 anos de consagrada parceria com Claude Troisgros e avisa que mulheres estão chegando ao pódio da gastronomia.

A chef Jéssica Trindade passou dois dias chorando após receber a primeira estrela Michelin da carreira iniciada em 2005. A honraria foi concedida em abril, com pompa e circunstância, em cerimônia realizada no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. A cobiçada estrela foi dada a Jéssica pelo detalhista trabalho realizado pela chef na cozinha do restaurante carioca Madame Olympe, aberto em agosto de 2025. “Receber uma estrela Michelin é o reconhecimento que todo cozinheiro sonha, mas que no início da carreira parece bem distante”, resume Jéssica, primeira mulher carioca a receber a láurea e a segunda em todo o Brasil, em entrevista exclusiva a Flo. Até então, somente a gaúcha Helena Rizzo tinha uma estrela Michelin para chamar de sua pelo trabalho à frente do restaurante paulistano Maní. Se o machismo enraizado na sociedade determinou que “lugar de mulher é na cozinha”, esse mesmo império masculino parece ter sentenciado que, na hora dos prêmios gastronômicos, as láureas vão para eles, não para elas – tradição chacoalhada por Jéssica Trindade com o aval do mestre francês Claude Troisgros, com quem a chef divide a cozinha do Madame Olympe, pequeno e refinado restaurante situado ao lado do Chez Claude, outro empreendimento vitorioso de Claude, no bairro carioca do Leblon. “A gente vê poucas mulheres em evidência nesse ambiente muito masculino da cozinha. Desde que eu entrei na gastronomia, sempre ouvi muitos ‘nãos’. Só que esses ‘nãos’ me deram muita força para fazer tudo que eu sonhei, tudo que eu gosto. Não dei força ao machismo. Sempre acreditei no meu sonho e lutei por ele”, relata Jéssica. A primeira estrela Michelin de Jéssica Trindade – “Quando você ganha a primeira, quer logo se aprimorar para ganhar a segunda”, ressalta – acontece no momento em que a chef celebra exatos 20 anos de parceria com Claude Troisgros, iniciada em 2006, com estágio no já extinto 66 Bistrô. Após três meses, o estágio evoluiu para uma contratação, fazendo de Jéssica então a única mulher no time de cozinheiros de Claude. Jéssica tinha então 18 anos, acabara de se formar em gastronomia pela Universidade Estácio de Sá e tinha somente um ano de carreira. A bem da verdade, anos antes, Claude Troisgros já habitava o universo de Jéssica Trindade. A mãe da chef trabalhava em banco francês cujos eventos tinham os cardápios criados por Troisgros. Ali, a então menina já teve despertado o gosto pela gastronomia quando a mãe lhe falava do sabor da comida de Claude. Mais tarde, já na adolescência, Jéssica determinou que iria ser chef, estudou e bateu literalmente na porta do restaurante de Troisgros para pedir uma vaga. Qualquer vaga. Entrou como estagiária e o resto foi uma história desenvolvida em harmonia com o chef francês. “Claude é muito além de um chef para mim. Ele é um mestre que eu admiro pela generosidade e lealdade. A gente se fala todo dia e faz tudo em conjunto. O sarrafo é alto. Há muita cobrança pela alta qualidade. E ele tem confiança no meu trabalho”, celebra. Jéssica classifica o Madame Olympe como um “restaurante muito afetivo”, baseado na gastronomia francesa, mas alicerçado em pratos feitos com produtos brasileiros e sazonais, comprados de pequenos produtores locais. “Todo cozinheiro precisa de base, e a minha é a francesa. Mas o Brasil é apaixonante pela diversidade de produtos e de cultura. A gastronomia brasileira precisa ser valorizada”, receita a chef estrelada, criada em família portuguesa. A afetividade dos pratos abarca os desenhos feitos pela própria Jéssica para ilustrar o cardápio. São desenhos classificados pela autora como “muito loucos”, mas que traduzem a visão da chef artista. “São como eu vejo os pratos por dentro”, explica. A ideia dos desenhos surgiu em Madrid, mas a sofisticação de Jéssica Trindade na criação, execução e finalização dos pratos foi depurada na França, onde a chef trabalhou em dois restaurantes estrelados do clã Troisgros, Maison Troisgros e Mirazur. “A maior lição que eu tive na França foi o respeito pelo produto. Não tem como ter um ótimo prato se você não tem um bom produto cultivado adequadamente”, ensina. A paixão que guia Jéssica Trindade no exercício da gastronomia é tamanha que a chef nem sente o peso da rotina no trabalho. Em junho, Jéssica sequer conseguiu uma folga, mas não reclama, nem quando chega a ficar 17 horas em pé, cuidando de todas as etapas dos pratos e serviços. “Estou sempre feliz porque eu amo tanto essa profissão que, através da comida, cuida das pessoas. E cuidar do outro é um trabalho de generosidade”, entende a chef, lembrando que já teve cozinheiro analfabeto que aprendeu a ler no trabalho com o cardápio do restaurante. “Transformar as pessoas é o maior prêmio que a gente tem”, resume Jéssica, eleita recentemente a “Chef do ano” na premiação da revista Veja Rio – outra honraria habitualmente concedida a homens. “Foi como furar uma bolha. Esse momento é marcante. Toda vez que eu volto àquele momento, naquele retalho de minuto, eu choro. A gente está chegando. Quando eu comecei na gastronomia, em muitos lugares em que eu tentei emprego, eu não consegui por ser mulher. Hoje eu sou a ‘Chef do ano’. Isso diz muito sobre acreditar nos sonhos e não ter um plano B”, comemora Jéssica Trindade.