Artes _ 08 janeiro 2026 _ por Mauro Ferreira

Miguel Falabella: sabedoria em cena e na vida dedicada ao teatro

Ator, diretor e dramaturgo saboreia o sucesso da peça que escreveu para Natália do Vale, apronta texto para Alessandra Maestrini e Denise Stoklos e lança em 2026 o primeiro volume do livro que eternizará a sua obra teatral.

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Quando dá aulas, Miguel Falabella alerta os alunos de que teatro é palco de desilusões e decepções. “Você tem que ser casca grossa para aguentar o tranco”, ensina este aclamado ator, diretor e dramaturgo carioca em entrevista a Flo, com a sabedoria adquirida em cena e na vida. Miguel Falabella de Souza Aguiar aguentou o tranco e persistiu porque, desde que assistiu aos nove anos ao musical “Alô, Dolly”, encenado em 1965 pela atriz Bibi Ferreira (1922 – 2019), soube que o único caminho a seguir era o que o levaria ao palco, ao camarim e às coxias. “A vida inteira, eu soube para onde eu queria ir. E fui”, celebra o autor de sucessos teatrais como “Louro alto solteiro procura” (1994) e “Querido mundo (1993”), peça adaptada para o cinema em filme recém-estreado em festivais. Generoso com os amigos, mas casca grossa quando a vida lhe exigiu resiliência, Falabella se tornou sinônimo de sucesso permanente na ribalta desde que conquistou a fama, primeiramente como ator na década de 1980 e, a partir de 1990, como dramaturgo e diretor. O marco da consolidação foi o fenômeno “A partilha”, peça que se tornou um dos maiores blockbusters do teatro nacional, já tendo sido encenada em 14 países. No elenco original de “A partilha”, estava a atriz Natália do Valle, para quem Miguel escreveu “A sabedoria dos pais”, espetáculo de 2025 que marcou a volta do dramaturgo a um texto mais autoral, após trabalhos como autor e/ou diretor na seara dos musicais biográficos de ícones do samba como Alcione e Martinho da Vila. Protagonizada por Natália com o ator Herson Capri, a peça colheu elogios na temporada carioca pelo texto humanista de Falabella, escrito com doses equilibradas de humor, melancolia e observações sobre gente como a gente. A consagração provavelmente vai se repetir na temporada paulistana, a partir de fevereiro. “O teatro necessariamente se preocupa com as mudanças sociais e com as injustiças do tempo em que vivemos. Mas eu particularmente gosto de falar de gente porque gente surpreende sempre para o bem e para o mal. E, falando de gente, eu faço um teatro popular. O teatro não pode ser chato. Shakespeare era popular. Molière era popular”, ressalta o dramaturgo. Nascido em 10 de outubro de 1956, Miguel Falabella chega aos 70 anos em 2026 com a agenda cheia no teatro. Ficou um ano em cartaz com a amiga Marisa Orth, entre Brasil e Portugal, com encenação da peça “Fica comigo esta noite” (1988). Mas já apronta texto para Alessandra Maestrini e Denise Stoklos, se prepara para trabalhar com a dupla Charles Möeller & Claudio Botelho na próxima montagem brasileira do musical “Vitor ou Vitória” e programa o lançamento do livro “A partilha”, primeiro volume da obra que eternizará os textos escritos pelo artista para o teatro. Tudo isso enquanto aguarda o início dos trabalhos como diretor de musical sobre a vida de Gilberto Gil, previsto para estrear em agosto, em São Paulo. Apesar de 2026 se insinuar um ano cheio de realizações na fronteira dos 70 anos, Falabella avisa que evitará alarde sobre a nova idade. “É que o etarismo é violento e atuante. As pessoas passam a te rotular, a te botar numa prateleira. É gay, é velho... Nunca gostei de rótulos. Não sou nada. Sou um artista. Quem não gostar que passe na boca do caixa”, provoca, com a verve já notória no meio artístico. Até hoje ninguém foi ao caixa reclamar de um texto, direção ou interpretação de Miguel Falabella. Ao contrário. Quando se deparam com o artista na rua, as pessoas costumam abrir um sorriso. “É porque, em algum momento da vida dessa pessoa, eu provoquei uma gargalhada”, interpreta Falabella, para logo arrematar: “Esse é o maior prêmio que a vida poderia ter me dado”. Sim, Miguel Falabella sempre arrancou gargalhadas com os textos ditos em cena por ele próprio ou por atrizes e atores como Arlete Salles, Cláudia Jimenez (1958 – 2022), Diogo Vilela Maria Padilha e Natália do Valle – “Tenho minha turma! Eu gosto de trabalhar com gente que sabe dizer o texto que eu escrevo” – mas também sabe provocar reflexões agridoces com mix de alegrias e tristezas extraídas do cotidiano. “Quanto mais a gente se aproxima da finitude, mais reflexivo e melancólico a gente vai ficando”, pondera. “Mas rir é uma dádiva. E é cada vez mais difícil rir nesse mundo virtual em que a gente vai perdendo as humanidades. A interação entre as pessoas está cada vez mais difícil. E o teatro tem obrigação de resgatar isso”, prega Falabella. Miguel Falabella tem resgatado a humanidade através de textos como o de “A sabedoria dos pais”, peça na qual um casal se separa após décadas e tem que reaprender a viver sozinho e a lidar com assuntos como a transexualidade de ente querido. Décadas antes de os dramaturgos terem que seguir o manual politicamente correto, Falabella já exercia a liberdade de escalar elenco heterogêneo. A travesti Camille K (1945 – 2024), por exemplo, foi convidada por ele para integrar os elencos de duas peças do dramaturgo, “No coração do Brasil” (1992) e “A pequena mártir de Cristo Rei” (1995). “Sempre fui político através dos meus personagens. Meu mundo é o da diversidade. Sempre falei sobre tudo sem levantar bandeira”, ressalta Falabella, com a sabedoria que o guiou em caminhada vitoriosa. Para o menino sonhador criado na Ilha do Governador, bairro distante da efervescência cultural carioca, o teatro sempre foi o cenário da vitória pessoal do artista. As decepções e desilusões, se existiram, ficaram na poeira da estrada. - Confira a seguir o vídeo com Miguel Falabella. Texto: Mauro Ferreira. Captação de imagens: Eduardo Barbetta. Edição de imagens: Tiago Coimbra. Editor responsável: Renato Henrichs.