Roberto Menescal: Lenda viva da bossa nova
Perto de completar 89 anos, o músico saboreia o fato de ser a única lenda viva da primeira geração do movimento que revolucionou a música brasileira em 1958.

“Sou o único que ficou. O resto já está lá no segundo andar”, ressalta Roberto Menescal enquanto conversa com a Flo no jardim da casa em que vive na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, entre as bromélias e o estúdio de gravação construído dentro da casa. Aos 88 anos, já perto de completar 89, o compositor e músico conserva a leveza da juventude e saboreia a rotina de ser de fato a única lenda viva da primeira geração da bossa nova, movimento que revolucionou a música em brasileira em 1958, a reboque da batida diferente do violão de João Gilberto (1931 – 2019) e das músicas de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), o Tom, como era chamado pelos amigos como Menescal. “Fiquei louco com o João. Mas Tom é o cara, até hoje para mim. O Tom nos deu muita força quando ninguém dava bola para a gente”, pondera. Madrugador, Menescal se dedica aos cuidados com as bromélias das 7h às 9h da manhã. A partir das 10h, ele bate ponto no estúdio, pois nunca foi tão requisitado para produzir álbuns de bossa nova por cantores que se encantam pela possibilidade de trabalhar com o autor de “O barquinho” (1961), “Rio” (1963) e “Você” (1964), para citar somente três standards da parceria de Menescal com o letrista Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994). O mais comentado desses discos juntou Menescal e Toquinho com Luísa Sonza, artista da nova geração que se aventurou a cantar bossa nova. Com Sonza, nascida em 1998, Menescal se apresentará no Rock in Rio em 7 de setembro, fazendo inédito show que será levado para algumas capitais do Brasil na sequência. “Tô fascinado com o novo. Com o novo baseado no velho. Adorei Luísa cantando. Cantar bem bossa nova é difícil”, sentencia, com a autoridade de quem viu nascer a música que arejou o som do Brasil e ganhou o mundo pela leveza e sofisticação harmônica. Roberto Menescal tinha tudo para viver nostálgico do passado glorioso. Mas tudo que o artista parece dizer é “chega de saudade”. “Adorei tudo o que vivi, claro. Mas não tenho saudade. Tenho saudade do futuro, do que está chegando”, citando nominalmente jovens que estão aderindo à bossa nova com o sotaque do século XXI, como o cantor Theo Bial (com quem Menescal vem compondo e com quem já se apresentou no Blue Note do Japão), a cantora Analu Sampaio e os Irmãos Campolongo. O tempo de Menescal é hoje, atento aos rumos da música produzida com recursos de inteligência artificial, a IA. “Estou impressionado como isso vai mexer na arte da gente. Os compositores estão apreensivos, pois ainda não existe regulamentação”, revela. De todo modo, a proximidade dos 90 anos do artista, a serem festejados em 2027, impulsiona tributos focados obviamente na caminhada do artista. Já está na pauta, para 2027, um álbum com gravações inéditas das músicas mais importantes do parceiro de Chico Buarque na música-tema do filme “Bye bye Brasil” (1979). Antes, possivelmente no fim deste ano de 2026, estreia documentário sobre a trajetória deste capixaba de alma carioca que se firmou no Rio de Janeiro (RJ), na virada dos anos 1950 para a década de 1960, entre a música e a pesca submarina, hábito dos tempos de juventude. Ícones da MPB, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, falam no filme sobre a importância de Menescal, cujo último álbum, “O mundo livre de Menesca e Peranza”, foi lançado em maio, juntando o violonista e guitarrista com o pianista Gilson Peranzzetta, celebrado por arranjos feitos para Ivan Lins. “Peranzzetta é uma cara muito mais adiantado no instrumental”, elogia Menescal. Sempre que fala em instrumentistas adiantados, Menescal celebra o pioneirismo de outro pianista, Johnny Alf (1929 – 2010), sabidamente o músico que apontou os caminhos da modernidade harmônica para Tom Jobim, Carlos Lyra (1933 – 2023) e o próprio Menescal. “Johnny foi o descobridor. O cara que fez coisas anos antes da gente. Antes de se falar em bossa nova, o Johnny Alf já a fazia”, avaliza Menescal. Quando a bossa nova já era uma realidade, com a batida do violão de João Gilberto ditando o ritmo da nova música, Menescal se afinou com Ronaldo Bôscoli, letrista dos grandes sucessos do compositor. “Ele era a noite. Eu era o dia. A gente adorava samba-canção, mas não com aquelas letras tipo ‘ninguém me ama’, ‘vim pela noite de fracasso em fracasso’. Bôscoli então me propôs ‘vamos tirar a gravata da música! Vamos usar bermuda’. A gente era jovem”, sublinha Menescal. Com Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal fez músicas eternizadas na linha marítima carioca ‘sal, céu, sol, sul’. Mas foi o próprio Bôscoli que, com a instauração da ditadura de 1964, sentenciou que era hora de a dupla de compositores dar um tempo porque o clima no Brasil ficou nublado. Acharam que a nuvem duraria dois anos, mas levou 20 para que o sol da democracia voltasse a iluminar o Brasil. Nesse tempo, Menescal passou para o outro lado do balcão. Foi diretor artístico da gravadora Philips / PolyGram por cerca de 15 anos. Chegou a produzir álbuns de Chico Buarque, Elis Regina (1945 – 1982) e Gal Costa (1945 – 2022), mas, na maior parte do tempo, geriu repertórios e orçamentos de discos alheios, convivendo com egos dos colegas. Se uma cantora chegou a lhe arremessar um sapato, outra urinou na mesa de som recém-adquirida pela companhia fonográfica por 700 mil dólares. Foi ao participar, como produtor e músico, de um disco de voz e violão de Nara Leão (1942 – 1989) que Menescal vislumbrou o caminho de volta em meados dos anos 1980. Fazer show com Nara carimbou a certeza de que hora de voltar a ser músico e compositor. “Nara me trouxe de volta à música”, reflete, emocionado, fazendo sem amargura um balanço da vida. “Umas pessoas foram difíceis, outras foram fáceis. Algumas foram surpreendentes. A vida é isso. Ainda hoje, eu continuo sendo surpreendido”, celebra Roberto Menescal, sempre atento ao novo.